| Brasil, o “sindicatão”
A segunda greve de funcionários dos Correios, num período
de três meses, prejudica milhares de usuários em 19 estados
da federação. O movimento eclode no início do mês,
quando são postados avisos de contas, tributos e outros bens
e serviços de alta importância, cujo não pagamento
pode resultar em multa e transtornos tanto aos usuários quanto
para os fornecedores.
Na versão dos trabalhadores, a paralisação acontece
porque a empresa de correios não cumpriu acordos da greve anterior.
A empregadora garante que cumpriu tudo. Falta nesse meio a presença
séria do Estado normatizador, gestor e fiscalizador, para evitar
que um desentendimento entre patrões e empregados cause irreversível
prejuízo a milhões de cidadãos e instituições.
O governo deveria fazer isso, inclusive, como poder concedente do serviço.
A greve é instrumento legal, legítimo e imprescindível
do trabalhador. Assim define o artigo 9° da Constituição
que, no entanto, também cita os setores essenciais e a punição
de abusos. As paralisações intermináveis que a
nação tem assistido levam a crer que tanto trabalhadores
quanto as autoridades têm reconhecido apenas o direito de cruzar
os braços e ignorado as demais responsabilidades decorrentes
do impasse.
Em toda sociedade evoluída, a greve é o último
recurso. Após todas as tentativas de persuação
e negociação do lado patronal para suas reivindicações,
o trabalhador pára. Mas não o faz “por tempo ilimitado”.
Primeiro faz as advertências, depois paralisações
rápidas e só parte para algo mais longo quando esgotadas
todas as possibilidades de negociação.
No Brasil, as greves que atingem a iniciativa privada são rapidamente
resolvidas porque, se longas, quebram a empresa e provocam o desemprego.
Mas o mesmo não ocorre no serviço público. Há
casos de paralisações que duram meses e chegam a ser esquecidas,
só voltando a ser notícias quando terminam. É o
caso de segmentos médicos. Isso chega até a colocar em
dúvida a necessidade de manutenção da repartição,
do seu serviço e do quadro grevista.
Enquanto gestor público, o governo tem a obrigação
de cuidar para que haja fluidez nas relações do trabalho
e na própria economia nacional. Atuar preventivamente para evitar
o confronto entre o capital e o trabalho que, normalmente, é
carregado de comprometimento político-ideológico e não
tem qualquer preocupação com a sociedade que diz defender.
O Brasil não pode ser tratado como um “sindicatão”
e transformado num chão-de-fábrica. Isso não condiz
com a posição de sexta economia do mundo e muito menos
com um lugar – segundo as agências internacionais –
ideal e seguro para investimentos. O presidente e os demais ex-sindicalistas
que atuam no governo deveriam estar conscientes disso e fazer tudo para
evitar essa prejudicial contradição...
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves
E-mail: aspomilpm@terra.com.br |